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Coloquei na cabeça que quero escrever um livro, e estou escrevendo. Essa é a primeira crônica que eu escrevi para ele, e já recebeu vários ajustes e modificações. Não sei se está pronta, mas resolvi colocar aqui para que mais pessoas possam ler e dar suas opiniões. Sintam-se livres para comentar o que acharem, sentirem, etc.

As crônicas não serão autobiográficas, mas os personagens vão receber vários traços (físicos e psicológicos) meus. Mas não, não será um diário. O livro e a crônica ainda não têm nome. Está tudo nos primeiros passos.

Crônica nº1


Gozou, levantou e foi ao banheiro. A mijada foi um alívio. Passara minutos com a bexiga explodindo, mas o orgasmo parecia mais importante do que uma ida à privada. Voltou ao quarto do motel e deu de cara com o enorme espelho, cheio de manchas de mofo e infiltração, que ocupava toda a parede ao lado esquerdo da cama. Não estava preparado.

Seu próprio corpo estava ali, encarando-o de volta, quase julgando a si próprio. Por um momento, teve a impressão de que a cicatriz da apendicite e o umbigo formavam uma expressão de desaprovação. Era estranho ver as formas que seu corpo tomava com o tempo e os ataques noturnos à geladeira. Quando foi que essa pança e esses peitos ficaram tão grandes? E por que diabos meu pau fica tão menor quando tá mole? Se alguém me visse agora, ia achar que esse é o tamanho normal!

- Gente, por que as pessoas reclamam TANTO no Facebook? Duvido que metade dessa gente pense mesmo nesses “problemas” – a voz vinha da cama.

O namorado, de cueca, fumava, mexia no celular e reclamava, sem saber de um décimo do que acontecia a poucos centímetros dele. Sua maior batalha no momento era com seus seguidores. A neura do outro abafava qualquer som externo, e a pergunta do namorado bateu na parede e morreu no chão.

Foi até a cabeceira, pegou o celular e tirou várias fotos na frente do espelho. Parecia esperar que elas revelassem alguma coisa escondida, como se as dobrinhas no abdômen tivessem algum segredo para contar. E tinham.

O resultado foi horrorizante. Talvez pelo fato de serem inanimadas, as fotos pareciam amplificar todos os defeitos que ele tentava ignorar – e até alguns que ele realmente ignorava até então. Elas serviram como sal na ferida: um choque seguido de dormência. Talvez minha situação não esteja tão ruim, até já me elogiaram mesmo eu tando numa fase gordinha... E eu arranjei um namorado, não arranjei?

Estavam juntos havia quase quatro anos, e estavam se preparando para dividir o mesmo teto. Morar em pontos tão distantes de São Paulo não ajudava a relação, por mais romântico que o conceito de “saudade cotidiana” possa parecer. Precisavam arrumar logo um ninho e colocar todos os problemas sob um mesmo teto. Isso, sim, seria romântico.

Saiu da frente do espelho, deitou na cama, olhou mais uma vez as fotos que havia acabado de tirar e começava a criar um certo orgulho – se não pelo corpo, pelo menos pela iniciativa de ter tirado fotos nu e não tê-las apagado de imediato. É, talvez eu esteja bem, no fim das contas. Talvez eu seja gostoso em alguma subcultura.

O simples pensar na palavra “gostoso” trouxe no mesmo segundo a imagem de homens brilhando de óleo, com gominhos abdominais e pelos nos lugares certos. Ah, os publicitários! Essa era a profissão do namorado, e era a área que ele mesmo havia explorado nos últimos anos. Quem odeia mais os publicitários do que eles mesmos?

Por que TANTOS gominhos, meu deus? E pra que o óleo? Parece que eles tão indo direto pro forno.

Foram necessários todos os resquícios de adolescência e rebeldia estética que ainda estavam guardados no fundo do ego para praticar auto-ajuda e afirmar para si mesmo que “ser diferente também pode ser interessante”. E, lembrando dos homens do seu passado e seus gostos muitas vezes pouco convencionais, pensou que talvez a soma dos “diferentes” fosse maior do que o lugar comum.

Arrumou o lençol furado de queimadura de cigarro, abraçou o namorado.

- Tá tudo bem? – o namorado notou alguma coisa faltando no outro.
- Tá – mentiu.

Dormiu com o rosto ensaiando um meio sorriso – era pouco convincente, metade de uma resolução. Pelo menos o sexo tinha sido bom.

3 comentários:

Carlos Alberto disse...

Pô bruno, massa que está escrevendo um livro, gostei de saber dessa.

Eu que nunca li muita crônica na minha vida, vim logo aqui conferir a tua. Como falei, crônica é um gênero que não conheço bem. A tua me chegou com um jeitão de conto, narrativa.
Eu curti. E tô na espera das próximas.

gustavo almeida santos disse...

Querido, vou te dar minha impressao sobre o texto. Para mim ( e e' apenas minha opiniao ) sua cronica soa algo como "Os hipsters tambem tem problemas", o que nao e' algo negativo nem positivo. Acho que e' uma postura sua, uma abordagem. A unica questao e' que vejo que vc buscou algo mais cru ( com a linguagem, a questao do corpo, etc...) mas parou na beira do abismo. Gosto muito da descricao do orgasmo pre'-xixi ( que e' algo que todos nos passamos ) e fiquei esperando um salto no abismo...talvez uma exploracao desse xixi que fica desviando teu pensamento na hora do sexo, assim como varias coisas na vida desviam nosso pensamento do rumo certo.Ou mesmo essa dor do xixi que te incomoda em um momento onde vc teria que obrigatoriamente sentir prazer. E' esse golpe de realidade que se dissolve de uma maneira ridicula ( a mijada ). O xixi, na minha opiniao , foi o grande momento do seu texto, mas que se perdeu entre outra descricoes quizas nao tao relevantes, como: facebook, fotos, gominhos, oleo, publicidade...Acho que sao muitos topicos, muitas questoes em poucas linhas, o que na minha opiniao enfraquecem a personalidade do personagem. Fora isso, gosto do seu senso de humor e gosto que seja tematica gay ( que alias e' tratada de maneira muito despretenciosa, o que vejo de maneira super positiva ). Tb gosto que vc assuma que os personagens vao receber tracos fisicos e psicologicos seus. Vejo isso como uma acao antropofagica, quase canibalista: vc se auto devorando em seus personagens. E isso pode ser bastante interessante se vc colocar pra fora, talvez, lados seus que a gente nao conheca, algo mais podre ou mesmo mais existencialista. E se for algo realmente hardcore, vc sempre tem a desculpa de que foi licenca poetica e resultado de sua criacao :)

Bruna Mata Cavassani disse...

Bruno!

Quando li seu conto pela primeira vez, achei que precisava absorver um pouco mais e reler antes de comentar.

Foi o que fiz. Eu gosto da sua escrita. Você descreve a situação bem. Algo na história lembrou bastante de Girls, o seriado. Pela forma como a série conta coisas que normalmente não compartilhamos com ninguém.

Acho que seu texto causará impactos diferentes dependendo de quem lê, obviamente. Alias todo texto faz isso né? Cito isto em especial, porque acredito ter reconhecido os personagens deste conto. Porém, se jamais os conhecesse, seria interessante conhecer ainda mais da personalidade deles.

Acho que o seu amigo, quando cita "hipsters também tem problemas" cria uma atmosfera que eu também senti.

E vou dizer, não é fácil se expor desta forma e você está de parabéns por fazê-lo!

Vou acompanhar o blog e espero ajudar :) beijos e boa sorte!