estava de volta ao café, novamente sozinho, novamente aguardando. mas as semelhanças não iam muito além. sentia-se diferente. mais leve, despreocupado com o presente. o café já não levava mais tanto açúcar.
buscava com uma certeza e uma confiança maiores as coisas que o podiam deixar satisfeito, ou pelo menos aproximá-lo do sentimento de lar que tanto lhe fazia falta. o emprego, a casa, o dinheiro. todas aquelas invenções desnecessárias e indispensáveis. odiava essa face do universo urbano, uma antropofagia no pior dos sentidos, onde flagrava cenas involuntivas. pequenos engolindo gigantes. Darwin às avessas.
por outro lado sabia-se humano no inconformismo, era apenas lamentável que viesse acompanhado de infelicidade e amargura. o gosto da boca de quem houvesse passado dez anos em coma. a busca incessante por vezes lhe travava a língua, atrofiava-lhe o esôfago, revirava-lhe o estômago, petrificava-lhe os intestinos. a esse passo, poderia muito bem ver-se transformado em um tubo comprido e seco, entupido, inútil. um toco estancado, infértil, morto.
ainda fugia dessa visão, mas observava, enfim, que estava longe dela, conferindo-lhe contornos de um pesadelo de infância. agora, apesar de adolescendo - e talvez justamente por isso - sentia um formigamento nas entranhas, um aviso/memorando de que as mudanças apenas se iniciavam. era a grama cutucando a terra por baixo, iniciando a germinação. a construção começava ali pelo jardim.
sentado com os pés molhados pela chuva, tremia em níveis moleculares; apenas os bons observadores captavam. mas seria fácil identificar as pequenas terríveis mudanças; era só olhar para as xícaras: o café já não levava mais tanto açúcar.
24 Novembro, 2009
05 Novembro, 2009
o calor parecia sempre remeter à estaticidade, uma terapia desmotivacional. o sorvete era um colírio, aliviando a irritação, mas deixando ainda as veias inchadas e rubras.
os olhos piscando insistentemente, a saliva escassa, o suor brotando nos poros. de flores murchas a humores destemperados, tudo morria mais rápido naquele tempo.
era muita pele e carne expostas, ressequidas, desidratadas. o que restava descoberto mofava com a transpiração excessiva. assaduras, queimaduras, insolação.
era difícil imaginar como escapar desse açougue, e ainda mais fazê-lo sem antes tornar-se carcaça, vendo suas partes sendo destacadas e comercializadas a um preço ínfimo.
pensava em como era injusto que todo o seu potencial criativo e prático permanecessem secretos por baixo dos músculos e ossos. poderia ao menos desejar que, ao ser despedaçado, toda essa força reprimida fosse liberada; uma hemorragia aliviadora.
os olhos piscando insistentemente, a saliva escassa, o suor brotando nos poros. de flores murchas a humores destemperados, tudo morria mais rápido naquele tempo.
era muita pele e carne expostas, ressequidas, desidratadas. o que restava descoberto mofava com a transpiração excessiva. assaduras, queimaduras, insolação.
era difícil imaginar como escapar desse açougue, e ainda mais fazê-lo sem antes tornar-se carcaça, vendo suas partes sendo destacadas e comercializadas a um preço ínfimo.
pensava em como era injusto que todo o seu potencial criativo e prático permanecessem secretos por baixo dos músculos e ossos. poderia ao menos desejar que, ao ser despedaçado, toda essa força reprimida fosse liberada; uma hemorragia aliviadora.
20 Outubro, 2009
pediu um café e sentou. cansado pelo trabalho, assustado com a sujeira escondida por baixo das unhas. observava as pessoas, mas pensava em si mesmo. e nele. e em como estava mudando por causa dele, julgando estar amadurecendo emocionalmente. e talvez até estivesse.
brincava com a asa da xícara, como se fizesse cócegas em uma orelha. adoçava o café mais do que a maioria das pessoas que conhecia. a cada gole se perdia pensando em sexo, ansioso pela madrugada que viria. a vontade, o nervosismo, a excitação... nada disso se borrava com o tempo; essas sensações eram tão nítidas e reais que davam a impressão de que poderiam ser pegas com as mãos e colocadas no bolso.
mexia nos cabelos, imaginando as posições em que ficariam uma vez que começassem a ser bagunçados. pensava nas pausas para cigarro, água e curtos descansos. de certa forma, seria tudo muito tântrico. produzia curtas-metragens em sua cabeça com cenas que já havia visto e cenas em que gostaria de contracenar.
músculos, pêlos, suor, mãos, pés, bocas, porra. não via a hora de confundir seus corpos.
mais um café, e a ansiedade aumentava. o açúcar derramado, e as letras pareciam sair mais grossas no papel. mexia distraído a colher dentro da xícara. mais alguns minutos e seus pensamentos poderiam transbordar; as letras, pular do papel; o café, escorrer pelo fundo da xícara.
sentia por dentro a lua e a maré. wax and wane.
brincava com a asa da xícara, como se fizesse cócegas em uma orelha. adoçava o café mais do que a maioria das pessoas que conhecia. a cada gole se perdia pensando em sexo, ansioso pela madrugada que viria. a vontade, o nervosismo, a excitação... nada disso se borrava com o tempo; essas sensações eram tão nítidas e reais que davam a impressão de que poderiam ser pegas com as mãos e colocadas no bolso.
mexia nos cabelos, imaginando as posições em que ficariam uma vez que começassem a ser bagunçados. pensava nas pausas para cigarro, água e curtos descansos. de certa forma, seria tudo muito tântrico. produzia curtas-metragens em sua cabeça com cenas que já havia visto e cenas em que gostaria de contracenar.
músculos, pêlos, suor, mãos, pés, bocas, porra. não via a hora de confundir seus corpos.
mais um café, e a ansiedade aumentava. o açúcar derramado, e as letras pareciam sair mais grossas no papel. mexia distraído a colher dentro da xícara. mais alguns minutos e seus pensamentos poderiam transbordar; as letras, pular do papel; o café, escorrer pelo fundo da xícara.
sentia por dentro a lua e a maré. wax and wane.
03 Outubro, 2009
parecia-lhe que o mal do mundo e a solução eram um só: a comunicação. ora um peixe pego pelo anzol, ora um recém-nascido alimentado no peito. a boca era a porta para tudo.
não lhe parecia mais tão absurda a idéia do silêncio, antes calado do que mal-interpretado. seu próprio som era agora uma ameaça. palavras eram farpas, fagulhas, pregos enferrujados. restava ainda a compaixão pelo ouvido próximo.
queria maneiras de um ferreiro, forjar todo aquele ferro retorcido até torná-lo inofensivo. quem sabe até belo. precisava de um mantra que o impedisse de disparar até que dominasse aquela arte. caso o gatilho lhe escapasse das coordenações, havia de saber mirar no vazio, evitando mais uma vítima.
não queria ser aquele atirador dormente em sua garganta.
não lhe parecia mais tão absurda a idéia do silêncio, antes calado do que mal-interpretado. seu próprio som era agora uma ameaça. palavras eram farpas, fagulhas, pregos enferrujados. restava ainda a compaixão pelo ouvido próximo.
queria maneiras de um ferreiro, forjar todo aquele ferro retorcido até torná-lo inofensivo. quem sabe até belo. precisava de um mantra que o impedisse de disparar até que dominasse aquela arte. caso o gatilho lhe escapasse das coordenações, havia de saber mirar no vazio, evitando mais uma vítima.
não queria ser aquele atirador dormente em sua garganta.
01 Outubro, 2009
leonino. sua savana cresce a cada dia, em mim. é um reino em expansão; as paisagens se parecem mais e mais com o que eu desejo para você, em mim. um território sonhado ad infinitum.
é necessário, no entanto, explorá-lo. marcar com pegadas firmes, deixando impressões profundas, ainda que grosseiras e cruas. minhas terras serão da extensão de seus rugidos.
estes imbondeiros precisam de um motivo para suas sombras; estas planícies requerem um predador que dê conta de tantas presas; meus lagos são esparsos mas não menos extensos. para eles, lhes servirão suas forças, que começo a conhecer.
não carregue, então, o peso que eu sei estar em seus ombros. você vai descobrir ser mais fácil e prazeiroso caminhar por mim de corpo e mente leves, e que ao mesmo tempo, de tanto andar, seu cansaço o aliviará. terei o dom de confortar sem domá-lo. é de meu interesse mantê-lo selvagem.
por fim, vou guardar em memória suas descobertas e conquistas, sabendo e transparecendo que moldo tanto quanto sou moldado. eis aqui sua coroação.
é necessário, no entanto, explorá-lo. marcar com pegadas firmes, deixando impressões profundas, ainda que grosseiras e cruas. minhas terras serão da extensão de seus rugidos.
estes imbondeiros precisam de um motivo para suas sombras; estas planícies requerem um predador que dê conta de tantas presas; meus lagos são esparsos mas não menos extensos. para eles, lhes servirão suas forças, que começo a conhecer.
não carregue, então, o peso que eu sei estar em seus ombros. você vai descobrir ser mais fácil e prazeiroso caminhar por mim de corpo e mente leves, e que ao mesmo tempo, de tanto andar, seu cansaço o aliviará. terei o dom de confortar sem domá-lo. é de meu interesse mantê-lo selvagem.
por fim, vou guardar em memória suas descobertas e conquistas, sabendo e transparecendo que moldo tanto quanto sou moldado. eis aqui sua coroação.
28 Setembro, 2009
desconhecia as datas em que as estações se alternavam, guiava-se apenas pela temperatura do dia. por dentro, no entanto, sabia quando as mudanças aconteciam. um grau a mais ou a menos lhe causava mais impressão do que um temporal inesperado.
e agora sentia mudanças acontecendo de dentro pra fora; das mais sutis às mais torrenciais.
sangue filtrado, os rins e o fígado trabalhavam com toda a capacidade. livrava-se das toxinas e tudo adquiria uma nova leveza. pele, olhos, mãos, sexo renovados.
estava pronto para absorver melhor os melhores e escoar o que de ruim lhe acontecesse.
e agora sentia mudanças acontecendo de dentro pra fora; das mais sutis às mais torrenciais.
sangue filtrado, os rins e o fígado trabalhavam com toda a capacidade. livrava-se das toxinas e tudo adquiria uma nova leveza. pele, olhos, mãos, sexo renovados.
estava pronto para absorver melhor os melhores e escoar o que de ruim lhe acontecesse.

