uma apresentação.
"o primeiro contato causava sempre estranhamento. não se conheciam, não sabiam de suas intenções, expectativas, impressões ou ambições. Bruno procurava um trabalho que satisfizesse seu bolso, mas que, antes disso, satisfizesse suas vontades criativas e construtivas. sabia da dificuldade de encontrar esse trabalho, sabia da dificuldade de encontrar qualquer coisa que fosse que pudesse saciar suas vontades, por mais frívolas ou essenciais que fossem. assim era o mundo dos adultos. ele fazia parte desse mundo havia já alguns anos, mas algumas imposições ainda lhe arranhavam o esôfago quando ingeridas.
não entendia como muitos, em meio a tanta labuta e suor, podiam não valorizar o próprio esforço e fazer dele a primeira satisfação. não era dado a religiões, mas não seria verdade que o trabalho purifica o homem? constatava, mais aflitivo ainda, que não só o trabalho se via desvalorizado, mas os resultados dele também. se não trabalhavam pelo prazer do trabalho, trabalhavam pelos frutos deste. dinheiro, status, contatos. seria compreensível, se ao menos guardassem tempo para usufruir desses resultados.
a verdade é que não queria crescer. e, inevitavelmente crescendo, não queria abandonar as antigas manias. desde pequeno gostava de se expor. não gostava de ler sozinho, acompanhado podia compartilhar suas impressões sobre os textos e entendê-los mais a fundo. estudou inglês desde que se lembrava, depois explorou o espanhol e o japonês; tentava cada vez mais ser universal. era a vontade pueril de se espalhar, água da chuva escorrendo pelas telhas e calha.
a verdade é que não queria crescer. e, inevitavelmente crescendo, não queria abandonar as antigas manias. desde pequeno gostava de se expor. não gostava de ler sozinho, acompanhado podia compartilhar suas impressões sobre os textos e entendê-los mais a fundo. estudou inglês desde que se lembrava, depois explorou o espanhol e o japonês; tentava cada vez mais ser universal. era a vontade pueril de se espalhar, água da chuva escorrendo pelas telhas e calha.
aos poucos descobriu a escrita, e como o papel funcionava de espelho e lente ampliadora. tudo ficava mais claro quando registrado. escreveu em blogs, cadernos, fez resenhas de música, cartas. até se dar conta de que não só suas palavras construíam seu palco. o mesmo papel recebia então linhas abstratas e figuras que faziam parte de suas simbologias. fez fanzines, estampas de camisetas, rabiscou os cadernos e a pele. entrou na faculdade de moda onde descobriu as paredes que poderiam estancar toda aquela criatividade latente. ao invés de esbarrar nelas, se fez janela e porta. trabalhou como designer de celulares e pesquisador de moda por dois anos.
foi uma surpresa quando se deu conta de uma paixão que carregava em um compartimento esquecido no fundo da mala. a música era um instrumento precioso. caverna ainda escura, ao acender um fósforo, descobria os minerais brilhando pelas paredes. não eram seus, e já estavam prontos, mas representavam não menos as suas idéias e sentimentos. recolheu-os decidido mais uma vez a compartilhar. virou dj. organizava festas, vestia fantasias, discotecava. criou um projeto com uma grande amiga e o tocou por três anos.
havia passado nove anos em fortaleza. era hora de voltar para casa.
são paulo era diferente do que se lembrava, e a cidade também lembrava dele de outra forma. era hora de recomeçar. parecia não haver limites, e pela primeira vez, se viu ameaçado pela liberdade. ficava claro agora de que precisava de limites para poder crescer. algo para travar uma batalha.
emprego temporário, trabalhava como vendedor de uma loja de roupas. se por um lado via na prática o estágio final dos produtos que antes criava, por outro via o quanto ainda havia a ser explorado pelas engrenagens de seus cérebro e mãos. precisava voltar a girá-las. óleo, ferrugem, gatilho, pólvora. o motor estava aquecido, necessitava apenas dar a partida.
emprego temporário, trabalhava como vendedor de uma loja de roupas. se por um lado via na prática o estágio final dos produtos que antes criava, por outro via o quanto ainda havia a ser explorado pelas engrenagens de seus cérebro e mãos. precisava voltar a girá-las. óleo, ferrugem, gatilho, pólvora. o motor estava aquecido, necessitava apenas dar a partida.
lembrou-se então de como gostava de escrever, e de tanto gostar, aprendeu com facilidade a encaixar as palavras e entortá-las, criando novos significantes e significados. hoje, é redator de seus próprios blogs. sites, blogs, resenhas, música, moda, comportamento. tudo que o cerca o inspira, e a transpiração é igualmente abrangente."


4 Comments:
hey bruno vc escrece bem kr. gostei da rápida auto-biografia! e n sabia q vc tinha um blog. abs!
Porra, cara, amei sua bio. Construção de metáforas perfeitas (y
um tanto cativante e ao msm tempo um tanto esperançoso, ao msm tempo uma pessoa forte e por um lado fraco e assustado, qualquer um que ler sua bio percebe que ainda haverá muita coisa na sua vida e que isso ainda não é exatamente o que vc é e o que vc procura mas que msm assim é algo que vc faz perfeitamente.
simples e inspirador...
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